domingo, 15 de dezembro de 2013

A Nave Foi

Tecnicamente o ano de 1980 faz parte da década de 70, por mais estranho que isso possa soar. Tão estranho quanto seria categorizar o 14 Bis como uma banda dos anos 70. Afinal, sete de seus treze álbuns [entre ao vivo e estúdio] foram lançados entre 1980 e 1987. Mas a banda data do início de 1978, tendo estreado no meio de 1979. E tanto sua sonoridade quanto a temática das canções podem ser considerados mais uma “rabeira” do Clube da Esquina e do rock progressivo dos 70 do que necessariamente a essência do que se produziu nos 80.

A Banda
 
O 14 Bis surge de dois dissidentes do progressivo “O Terço”, Flavio Venturini e Sergio Magrão e dois do Bendegó, Hely Rodrigues e Vermelho, além do irmão de Flavio, Claudio, que já havia tocado com Lô Borges. A relação com o Clube da Esquina vai além da origem mineira dos integrantes da banda [à exceção do baixista Magrão]. Flavio participou das gravações do primeiro disco solo de Beto Guedes “A Página do Relâmpago Elétrico” e, junto com Vermelho, de “Clube da Esquina II”. Em 1979 lançam o primeiro disco homônimo à banda e em 1980 já lançam o segundo, “14 Bis II”.
Se há um álbum capaz de sintetizar a carreira do 14 Bis é o segundo. Canções românticas, dançantes, riffs e harmonias vocais à la Beatles, instrumental progressivo... Tudo está lá. Com excelente qualidade. E permanece até hoje [o que talvez seja o “pecado” da banda]. Se o primeiro disco emplacou sucessos como “Perdido em Abbey Road”, “Canção da América [Unencounter]” e “Natural”, o segundo consolida a potência radiofônica e musical da banda com “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Planeta Sonho” e “Caçador de Mim” [que inverteu o caso de “Canção da América” e “Bola de Meia, Bola de Gude”, tendo sido gravada por Milton Nascimento, compositor destas duas]. Segundo Ricardo Alexandre, ex-editor da revista Bizz, em seu livro "Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80", a turnê de 14 Bis II “levou toda a fixação progressiva por equipamentos para todo o Brasil – toneladas em som e luz, cenografia, gelo seco, um telão e até um modelo do avião 14 Bis que se movia sob a plateia".

14 Bis II
O disco abre com uma parceria de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Bola de Meia, Bola de Gude”. Tal como a canção doada ao primeiro disco por Milton em seu “apadrinhamento” à banda, “Canção da América”, essa fez grande sucesso e não pode faltar ao repertório dos shows. Tão “clube-da-esquinística” quanto poderia ser, a faixa de abertura começa com violão e assovios, tem harmonias e “improvisos” vocais, letra nostálgica e mensagem positiva [“Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão”].
Em seguida, outra que se tornou grande sucesso, “Caçador de Mim”, de autoria de Sergio Magrão e Sá, traz uma letra poetizando conflitos internos e música com harmonia e levada de bateria intricados e arranjo de cordas – este tendo o ápice da utilização em “Carrosel”, mais para o fim do disco.  Sem deixar o ouvinte respirar, o órgão [característico do som da banda, composta por dois tecladistas] dá início a “Planeta Sonho”. A letra fala de vários planetas sendo Terra, fogo solto no caos, dissonâncias, e outros elementos que mesmo adorando a música, até hoje não entendi bem como fazem sentido juntas. Mas convenhamos que o grupo teve uma boa escola com os “clube-da-esquinistas” [“Feira Moderna” de Beto, Lô e Brant com o sorriso que eles temem, convite sensual, coração novo e pedido de paz na terra amém que o diga]. O encerramento com os teclados “esmerilhando” já dá o tom do que será a próxima faixa do disco. “14 Bis (Instrumental I e II)” é uma união de dois temas instrumentais de Flavio Venturini e Vermelho que remetem à fase progressiva e psicodélica dos tempos de “O Terço”.
 Se com a virada de bateria que inicia o refrão da faixa anterior ainda não se tinha certeza de que o 14 Bis é uma banda de rock, o Instrumental tenta não deixar mais dúvidas. Em seguida, outro sucesso: “Nova Manhã”. Essa, um rock mais dançante, com letra provavelmente sobre um romance recém-terminado e não tão bem resolvido que encerra com um solo de guitarra que demostra todo o virtuosismo de Claudio Venturini. O disco continua com a lentinha e romântica “Pra Te Namorar” [e dançar coladinho na festinha enquanto ela toca, de preferência] e a acelerada e nostálgica “Esquina de Tantas Ruas” [outro rock pra não se botar defeito]. Na sequência, a poética, romântica e altamente orquestrada, com uma explosão de instrumentos depois da subida de tom no fim, “Carrossel”.
O disco é encerrado com a ode ao rock inglês invadindo a música brasileira, tão viajandona quanto “Planeta Sonho”, “Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)”. Começa suave com o órgão e sinos de igreja, cita “Asa Branca”, “Domingo no Parque” e “Criaturas da Noite” [esta, faixa-título do mais icônico disco d’O Terço], estoura num grito e tem uma estrofe quase gritada em coro, falando dos gritos selvagens chegados pelo atlântico, das pedras rolantes e de Lucy no céu com seus diamantes [claras alusões a Rolling Stones e Beatles, respectivamente]. Tudo está nesta que é uma das canções mais lado B do disco mais representativo do 14 Bis: Órgão, letra viajandona, MPB, rock clássico e progressivo e, depois do fade out, a “sobra” da gravação da orquestra de “Carrossel”.
“14 Bis II” consolida o som e a carreira do grupo mineiro [ninguém lembra da origem de Magrão, coitado]. E como bons mineiros que são, comem quietos até hoje e parecem alheios ao que acontece no eixo Rio-São Paulo. Mesmo emplacando diversos sucessos ao longo dos anos 80, como “Linda Juventude”, “Todo Azul do Mar”, “Espanhola” e outros, eles pareciam viver em outra realidade que não a dominada pela irreverência, consciência política e guitarra mais distorcida que estabeleceram nomes como Titãs, Paralamas, Kid Abelha, Legião Urbana, Utraje a Rigor, RPM e outros no hall dos “roqueiros” brasileiros da década do Rock in Rio. Segundo André Midani, executivo da WEA, citado por Ricardo Alexandre “Tanto A Cor do Som quanto o 14 Bis eram grupos de músicos fantásticos, mas eram o rabo de uma geração e não a vanguarda de outra. Isso fez uma diferencia fundamental”. 


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