Tecnicamente o ano de 1980 faz parte da década de 70, por
mais estranho que isso possa soar. Tão estranho quanto seria categorizar o 14
Bis como uma banda dos anos 70. Afinal, sete de seus treze álbuns [entre ao
vivo e estúdio] foram lançados entre 1980 e 1987. Mas a banda data do início de
1978, tendo estreado no meio de 1979. E tanto sua sonoridade quanto a temática
das canções podem ser considerados mais uma “rabeira” do Clube da Esquina e do
rock progressivo dos 70 do que necessariamente a essência do que se produziu
nos 80.
A Banda
O 14 Bis surge de dois dissidentes do progressivo “O
Terço”, Flavio Venturini e Sergio Magrão e dois do Bendegó, Hely Rodrigues e
Vermelho, além do irmão de Flavio, Claudio, que já havia tocado com Lô Borges.
A relação com o Clube da Esquina vai além da origem mineira dos integrantes da
banda [à exceção do baixista Magrão]. Flavio participou das gravações do
primeiro disco solo de Beto Guedes “A Página do Relâmpago Elétrico” e, junto
com Vermelho, de “Clube da Esquina II”. Em 1979 lançam o primeiro disco
homônimo à banda e em 1980 já lançam o segundo, “14 Bis II”.
Se há um álbum capaz de sintetizar a carreira do 14 Bis é
o segundo. Canções românticas, dançantes, riffs e harmonias vocais à la
Beatles, instrumental progressivo... Tudo está lá. Com excelente qualidade. E
permanece até hoje [o que talvez seja o “pecado” da banda]. Se o primeiro disco
emplacou sucessos como “Perdido em Abbey Road”, “Canção da América
[Unencounter]” e “Natural”, o segundo consolida a potência radiofônica e
musical da banda com “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Planeta Sonho” e “Caçador
de Mim” [que inverteu o caso de “Canção da América” e “Bola de Meia, Bola de
Gude”, tendo sido gravada por Milton Nascimento, compositor destas duas]. Segundo Ricardo Alexandre, ex-editor da revista Bizz, em seu livro "Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80", a
turnê de 14 Bis II “levou toda a fixação progressiva por equipamentos para todo o Brasil –
toneladas em som e luz, cenografia, gelo seco, um telão e até um modelo do
avião 14 Bis que se movia sob a plateia".
14 Bis II
O disco abre com uma parceria de Milton Nascimento e
Fernando Brant, “Bola de Meia, Bola de Gude”. Tal como a canção doada ao
primeiro disco por Milton em seu “apadrinhamento” à banda, “Canção da América”,
essa fez grande sucesso e não pode faltar ao repertório dos shows. Tão
“clube-da-esquinística” quanto poderia ser, a faixa de abertura começa com
violão e assovios, tem harmonias e “improvisos” vocais, letra nostálgica e
mensagem positiva [“Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração
/ Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão”].
Em seguida, outra que se tornou grande sucesso, “Caçador
de Mim”, de autoria de Sergio Magrão e Sá, traz uma letra poetizando conflitos
internos e música com harmonia e levada de bateria intricados e arranjo de
cordas – este tendo o ápice da utilização em “Carrosel”, mais para o fim do
disco. Sem deixar o ouvinte respirar, o
órgão [característico do som da banda, composta por dois tecladistas] dá início
a “Planeta Sonho”. A letra fala de vários planetas sendo Terra, fogo solto no
caos, dissonâncias, e outros elementos que mesmo adorando a música, até hoje
não entendi bem como fazem sentido juntas. Mas convenhamos que o grupo teve uma boa escola com
os “clube-da-esquinistas” [“Feira Moderna” de Beto, Lô e Brant com o sorriso
que eles temem, convite sensual, coração novo e pedido de paz na terra amém que
o diga]. O encerramento com os teclados “esmerilhando” já dá o tom do que será
a próxima faixa do disco. “14 Bis (Instrumental I e II)” é uma união de dois
temas instrumentais de Flavio Venturini e Vermelho que remetem à fase
progressiva e psicodélica dos tempos de “O Terço”.
Se com a virada de
bateria que inicia o refrão da faixa anterior ainda não se tinha certeza de que
o 14 Bis é uma banda de rock, o Instrumental tenta não deixar mais dúvidas. Em
seguida, outro sucesso: “Nova Manhã”.
Essa, um rock mais dançante, com letra provavelmente sobre um romance
recém-terminado e não tão bem resolvido que encerra com um solo de guitarra que
demostra todo o virtuosismo de Claudio Venturini. O disco continua com a
lentinha e romântica “Pra Te Namorar” [e dançar coladinho na festinha enquanto
ela toca, de preferência] e a acelerada e nostálgica “Esquina de Tantas Ruas”
[outro rock pra não se botar defeito]. Na sequência, a poética, romântica e
altamente orquestrada, com uma explosão de instrumentos depois da subida de tom
no fim, “Carrossel”.
O disco é encerrado com a ode ao rock inglês invadindo
a música brasileira, tão viajandona quanto “Planeta Sonho”, “Pedras Rolantes
(Nas Ondas do Rádio)”. Começa suave com o órgão e sinos de igreja, cita “Asa
Branca”, “Domingo no Parque” e “Criaturas da Noite” [esta, faixa-título do mais
icônico disco d’O Terço], estoura num grito e tem uma estrofe quase gritada em
coro, falando dos gritos selvagens chegados pelo atlântico, das pedras rolantes
e de Lucy no céu com seus diamantes [claras alusões a Rolling Stones e Beatles,
respectivamente]. Tudo está nesta que é uma das canções mais lado B do disco
mais representativo do 14 Bis: Órgão, letra viajandona, MPB, rock clássico e
progressivo e, depois do fade out, a “sobra” da gravação da orquestra de
“Carrossel”.
“14 Bis II” consolida o som e a carreira do grupo mineiro
[ninguém lembra da origem de Magrão, coitado]. E como bons mineiros que são,
comem quietos até hoje e parecem alheios ao que acontece no eixo Rio-São Paulo.
Mesmo emplacando diversos sucessos ao longo dos anos 80, como “Linda
Juventude”, “Todo Azul do Mar”, “Espanhola” e outros, eles pareciam viver em
outra realidade que não a dominada pela irreverência, consciência política e
guitarra mais distorcida que estabeleceram nomes como Titãs, Paralamas, Kid
Abelha, Legião Urbana, Utraje a Rigor, RPM e outros no hall dos “roqueiros”
brasileiros da década do Rock in Rio. Segundo André Midani, executivo da WEA,
citado por Ricardo Alexandre “Tanto
A Cor do Som quanto o 14 Bis eram grupos de músicos fantásticos, mas eram o
rabo de uma geração e não a vanguarda de outra. Isso fez uma diferencia
fundamental”.
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