segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Crítica RPM


  • Uma das melhores bandas da história do rock brasileiro é o RPM. E em seu disco de estréia, a banda formada pelo vocalista e baixista Paulo Ricardo, o tecladista Luiz Schiavon, o guitarrista Fernando Deluqui e o baterista Paulo P.A. Pagni mostra um som cheio de atitude, combinando o rock alternativo do R.E.M. e do The Smiths com uma inundação de sintetizadores, trazendo ainda as inteligentes e arrebatadoras letras de Paulo Ricardo, lotadas de boas tiradas e de críticas à sociedade. “Revoluções por Minuto” é, inclusive, o significado das letras do nome da banda.
  • “Rádio Pirata” é a primeira faixa, já trazendo a sonoridade característica da banda, com uma letra bastante inteligente, mostrando o intuito do álbum; ironicamente, o RPM realmente invadiu as ondas do rádio país afora, se tornando um dos maiores fenômenos comerciais da música brasileira. “Olhar 43″ é um dos maiores clássicos da história do rock brasileiro, uma dançante música, com ótimo ritmo e boas variações, que traz um romantismo repleto de bom humor e com versos inusitados, retratando de forma perfeita o mundo boêmio dos jovens da época. A terceira, “A Cruz e a Espada”, é uma ótima música, melodicamente muito superior às anteriores, cujo instrumental impressiona positivamente por se mostrar muito bem trabalhado e de completo bom gosto. 
  • “A Estação no Inferno” é uma faixa mais densa, cujos sons sintéticos a tornam especialmente obscura; porém, é uma música bem mais fraca comparada às anteriores do álbum, tanto na letra quanto no instrumental. Um ritmo contagiante e ótimos riffs de guitarra constroem a quinta faixa, “A Fúria do Sexo Frágil Contra o Dragão da Maldade”, que retrata, como seu título já deixa transparecer, a luta e o sentimento feminista existente na época, com uma letra repleta de ironias.
  • “Louras Geladas” é outra música clássica presente no “Revoluções por Minuto”, contando um inusitado romance, trazendo em sua estrutura instrumental ótimos riffs de guitarra e uma interessante linha de baixo. “Liberdade/Guerra Fria” peca na utilização exagerada de bateria eletrônica, o que torna o instrumental da faixa extremamente fraco, soando como uma demo mal feita e ainda esperando uma primeira edição; a letra é boa, mas o vocal acaba abafado pela má produção da faixa. “Sob a Luz do Sol” é muito superior à faixa anterior, cujo instrumental executa muito bem o clima obscuro da boa letra. “Juvenília” procura retratar com um clima depressivo a situação da política na época, com uma letra cheia de críticas pessimistas.
  • A penúltima, “Pr’esse Vício”, contém como introdução um ótimo solo de baixo, que se transforma em um instrumental denso e obscuro, combinando muito bem com o tema que a canção trata. A última faixa do álbum, a clássica “Revoluções por Minuto”, com instrumental repleto de elementos eletrônicos, contém uma das melhores letras de Paulo Ricardo, que consegue criticar a situação política da época trazendo, ao mesmo tempo, veemência e sutileza. Poucos álbuns tiveram tanto êxito em retratar uma época como o primeiro do RPM.

Rock Brasileiro de Raiz



O ano é 1982, o início de uma década que ficaria conhecida pela quantidade de bandas de rock brasileiras que nasciam e agitavam com seus acordes por aí. Nesse ano, a Blitz lançou As aventuras da Blitz, primeiro álbum da banda, produzido por Mariozinho Rocha junto a gravadora EMI-Odeon, seguindo o já estourado compacto de Você Não Soube me Amar que arrebentou e vendeu mais de 1 milhão de cópias e o LP As Aventuras da BLITZ somando mais 500 mil vendas. Nessa época o grupo já fazia shows e por isso o entrosamento para a gravação não foi um problema, fizeram tudo assim: de primeira, numa tacada só. O disco é bem animado e trás um som ainda pouco definido em relação as categorias pop e rock se comparados a hoje. No entanto, é um clássico do "rock brasileiro de raiz" principalmente nessa linha entre final dos anos 70 e início dos 80.


Achei bacana fazer uma análise de cada música, porque esse álbum além de merecer por ser icônico e o primeiro de uma banda que tem a cara do rock brasileiro como a Blitz, dessas que vocês só encontra no anos 80 numa época que a galera estava melhorando os acordes distorcidos das guitarras aqui no Brasil, é único e diferente dos outros álbuns em pequenas coisas, pequenos detalhes que trazem uma peculiaridade ao álbum e a banda. Mas descobri que o blog 1001br.blogspot.com.br já havia feito... e como a ideia é compartilhar conhecimento e experiências musicais boas, fica aí a análise feita por eles que eu, particularmente, achei muito válida:


"As Aventuras da Blitz"


1. Blitz cabeluda. Começa com uma vinheta, tipo Sgt. Pepper’s: “Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro”. Clássico!

2. Vai, vai Love. Fala da gata querendo ir pro Baixo Leblon e o cara argumentando: “Eu disse que não era bom. Acho Leblon-todo-dia, vicia. E você perde a classe, vadia. Desvaloriza o passe maninha”.

3. De manhã (aventuras submarinas). O cara acorda, preguiçoso, sol já alto, e passa o dia sonhando com musas de cinema, enquanto fica de bobeira. Antológica!

4. Vítima do amor. Um rock romântico, cheio de vocais legais.

5. O romance da universitária otária. De versos antológicos: “Era boa em línguas, mas não sabia beijar”; “Ser ou não ser, o que será que serei, o que será que eu vou ser”; “Eu não queria falar, mas agora vou dizer: todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”.

6. O beijo da mulher aranha. Nada especial, mas me amarro nela, acho que pela melodia, os vocaizinhos, sei lá.

7. Totalmente em prantos. “Todo vestido bonitinho e não tenho onde cair. E sem nenhum lugar pra ir”.

8. Eu só ando a mil. Começa com uma vinhetinha, também: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração tchanraaammm Um som que marcará toda uma época. Vocês verão Blitz no melhor papel de sua carreira. Blitz amando, sofrendo, chorando e tocando como jamais alguém ousou tocar em toda história do seu rádio, vitrola ou gravador”. Perfeito! Uma das minhas preferidas.

9. Mais uma de amor. Mega sucesso! “Essa é mais uma daquelas manjadas estórias de amor que já aconteceram comigo, com você e com todo mundo”. A do geme-gemiiiiiiiii, uuuuuuuuuu!!!

10. Volta ao mundo. Boba, mas era engraçada. “Eu e meu amigo Julio. Julio, o tal do Verne. Dando a volta ao mundo”.

11. Você não soube me amar. “Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na ruuuuuaaaa”. Precisa falar mais?

12. Ela quer morar comigo na lua. O disco ainda tinha isso, duas músicas censuradas por causa de palavrões. Era a glória! No vinil, as duas últimas músicas vinham arranhadas, pra gente não poder ouvir. E essa nem sei por quê. Talvez porque falava “bundando”.

13. Cruel, cruel, esquizofrenético blues. Essa é a outra censurada. Fala de brilho... nos olhos. E da empregada que pegou no peru do marido. No peru de Natal, lógico. Tá, tudo bem, lá pelas tantas rola um “puta que pariu”.


A Blitz


 Foi uma das precursoras do rock nacional. O grupo foi formado em 1982, na cidade do Rio de Janeiro. Formada por Evandro Mesquita, Fernanda Abreu,  Marcia BulcãoRicardo Barreto, Antônio Pedro FortunaWilliam "Billy" Forghieri, e Lobão (depois substituído por Juba) descreve em seu site o nascimento da banda da seguinte forma: “Uma lona começa a ser esticada sobre o pedaço de terra que separa Ipanema de Copacabana. À sua sombra toma forma um espaço multicultural e democrático que ficou conhecido como Circo Voador, Naquele palco praiano(...) nasceu a Blitz”

Os anos de ouro do grupo foram de 1982 a 1986. Nesse tempo a BLITZ lançou 3 discos, fez centenas de shows pelo país e pelo exterior, entre eles as antológicas apresentações no Rock in Rio I, e se dissolveu às vésperas da gravação do quatro LP. Voltou a se reunir e a se separar nos anos 90. Hoje com uma formação estável, junta há cerca de sete anos e que já gravou três CDs e dois DVDs, a banda é composta por: Evandro Mesquita (vocal, guitarra e violão), Billy (teclados), Juba (bateria), Rogério Meanda (guitarra), Cláudia Niemeyer (baixo), Andrea Coutinho (backing vocal) e Mariana Salvaterra (backing vocal) seguem pelo Brasil com a turnê “Enquanto houver bambu, tem flecha!”



De Londres a Kingston

Ao pensarmos, especificamente, em rock brasileiro nos anos 80, uma das primeiras bandas que surgem em nossa memória é Os Paralamas do Sucesso. Isso se deve ao sucesso monstruoso da banda nesses 30 anos de carreira. Nas estantes de Herbert Vianna (guitarra e vocal), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria), uma infinidade de prêmios. Entre eles estão os Grammy’s Latinos, os Prêmios Multishow de Música Brasileira e alguns VMB’s, sendo, juntamente com a Pitty, um dos maiores vencedores da história da premiação musical da MTV.   
   

INÍCIO


Os Paralamas do Sucesso, ou apenas Paralamas, é uma banda formada no Rio de Janeiro no final dos anos 70, mas que só surge, realmente, no começo dos anos 80 com a saída do baterista Vital - após a ausência do mesmo em uma apresentação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – e a composição feita em referência ao ex-membro, conhecida como “Vital e sua Moto”.

Um cenário musical nacional dominado, principalmente, pela MPB e um contexto social muito turbulento. Uma juventude que buscava a renovação do pop-rock brasileiro. Influenciados por bandas punks inglesas, não importava a técnica, saber cantar, saber tocar. Era o nu e cru na melhor interpretação do “faça você mesmo”. A válvula de escape para uma geração que começava a expressar seus desejos de formas variadas. A vontade de construir um país melhor é explícita em letras cantadas em português. A valorização do que é nacional e a hibridação musical. Diferentes ritmos passam a compor uma única música e um dos maiores exemplos é o álbum “Selvagem?” (1986) dos Paralamas.


                                    

O DIVISOR DE ÁGUAS


Depois de tantos hits inspirados no rock inglês, tais como “Meu Erro”, “Romance Ideal” e “Mensagem de Amor” do álbum anterior, “O Passo de Lui” (1984), marcados por influências do Ska, a utilização de distorções na guitarra de Herbert, a forma do João Barone tocar parecida com o Stewart Copeland, baterista do grupo The Police, Os Paralamas do Sucesso inovaram no LP “Selvagem?”. Ficou nítida a aproximação da banda com a MPB nas canções “Você”, de Tim Maia, “A Novidade”, composta junto com Gilberto Gil, “Melô do Marinheiro” e “Selvagem”. Além disso, percebe-se também a influência dos ritmos africanos e latinos, como no caso das faixas “Teerã” e “Marujo Dub”, um som instrumental que nos remetem as músicas jamaicanas.



Sem deixar de lado o rock, o ska e o reggae que marcaram a trajetória da banda, as músicas passaram a ter mais força e cunho social, como é o caso de “Alagados”.

“Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia         

E a cidade que tem braços abertos

Num cartão postal

Com os punhos fechados na vida real

Lhe nega oportunidades

Mostra a face dura do mal”

Embora tenha causado um leve espanto nos críticos e fãs, o álbum foi muito bem aceito, refletindo diretamente nas vendas com mais de 750 mil cópias espalhadas Brasil afora.

Mim quer tocar, mim vai invadir sua praia

Um ultraje a rigor




Falar de Ultraje a Rigor é com certeza falar de vanguarda, tanto em experimentações para terras tupiniquins quanto em formas alegres de abordagem do cotidiano. A banda que já passou por diversas formações surgiu em São Paulo, no início da década de 80, tocando covers em colégios e bares. Sem nome definido até 1982, eles encontraram no traje a rigor o trocadilho perfeito para definir seu estilo. Ácidos nas piadas, um ano depois de descobrirem sua alcunha já tinham suas músicas próprias e substituíam um de seus membros originais (sai Sílvio e entra Maurício Defendi). Após alguns shows, a banda chama atenção e fecha seu primeiro contrato, com o executivo Pena Schmidt, da WEA, responsável pela produção dos primeiros singles dos paulistas, Inútil e Mim Quer Tocar. No ano seguinte, o lançamento dos singles Eu me amo e Rebelde Sem Causa fazem a banda explodir para todo o cenário nacional, e dão respaldo para o Ultraje gravar seu primeiro LP, Nós Vamos Invadir Sua Praia. Sucesso estrondoso, o disco se torna o primeiro álbum brasileiro a ganhar Disco de Ouro e Disco de Platina, colocando também a banda em sua primeira turnê pelo país, com shows icônicos e sucessivas quebras de recorde de público. A partir daí, Ultraje só precisou manter seu sucesso que era crescente. Em 1987 lançam seu segundo LP, Sexo!, e em 89, Crescendo, uma explicação clara de que a banda vinha mudando. Sempre polêmicos, tiveram várias de suas músicas proibidas ou alteradas pela censura, apesar de rebaterem essas proibições de forma descontraída em shows e entrevistas.  Em 1992 começam os problemas com a gravadora, que lança sem permissão da banda a coletânia "O mundo encantado de Ultraje a Rigor". A banda reage lançando pela primeira vez um disco de forma independente, intitulado Ah, se eu fosse homem! , que é ao mesmo tempo uma crítica à indiferença que sofriam por parte dos empresários e uma digressão sobre os problemas enfrentados pelos homens no novo pós-feminismo. A WEA coloca a banda numa situação difícil e chata: com baixo orçamento e apenas dois meses de estúdio, o Ultraje deveria gravar em 1993 mais um disco, intitulado Ô!, que seria simplesmente ignorado pelos executivos. Após o ocorrido, a banda ainda faz um ou outro trabalho, mas acaba entrando em ostracismo, voltando a fazer relativo sucesso apenas no final da década de 90/começo de 2000, quando tocam no Rock in Rio 3, ao lado do Ira!, em uma apresentação épica que contou até com uma performance de Should I Stay Or Should I Go?, dos ingleses The Clash. Em 2005 gravam o Acústico MTV, com grandes sucessos da banda, e em 2011 lançam a biografia Nós Vamos Invadir Sua Praia, pela Editora Belas Letras. No momento, encontram-se na condição de banda fixa do programa Agora é Tarde!, com Danilo Gentili, Talk Show da emissora Band criado para rivalizar com o Programa do JÔ.


Nós Vamos Invadir Sua Praia



Sem sombra de dúvida o trabalho de maior destaque do Ultraje A Rigor é o disco Nós Vamos Invadir Sua Praia. A primeira single do LP lançado em 1983 é a música de mesmo nome do álbum, e fala da vontade que os paulistas tinham de, literalmente, invadirem o Rio de Janeiro. No início da década de 80, as principais gravadoras estavam localizadas na cidade maravilhosa, e consequentemente lá se fechavam os melhores contratos.
A segunda faixa do álbum é a responsável pela alavancagem da banda ao estrelato. Rebelde Sem Causa é ao mesmo tempo uma crítica social e uma piada. Falando da revolta que os jovens de classe média apresentavam, inspirados pela cultura Punk, um pouco tardia no Brasil, Róger Moreira questionava o falso valor que era dado aos seus objetivos e ações, muitas vezes contraditórias para ele.
Mim Quer Tocar, primeira música lançada pela banda, no ano de 1993, funciona com certeza como uma música de apresentação do Ultraje. Na letra, de um português forçosamente errado, eles manifestam sua vontade de tocar e ao mesmo tempo ganhar dinheiro.
Zoraide mostra o lado mais escrachado da banda. Com uma pegada totalmente espontânea, e a atitude de banda de rock, seria de se espantar que em nenhuma música o sexo e a fidelidade (ou a falta dela) não fossem falados. Pedindo para não serem pentelhados por Zoraide, os músicos deixam claro em seus fortes riffs de guitarra que cansaram de ficar com apenas uma mulher.
Aí que vem a parte engraçada. Se em Zoraide fica claro que os integrantes da banda não querem compromisso, em Ciúme eles cantam sobre o sentimento de frustração ao não ter o controle sobre alguém. A frase "Mas eu me mordo de ciúme" deixa clara a inconformidade masculina nos momentos em que não se tem as rédeas da relação.
Com certeza, a sexta faixa de Nós Vamos Invadir A Sua Praia é a mais política e conscientizada. Funcional ainda hoje, a música Inútil revela muito do pensamento brasileiro e da falta de responsabilidade no cumprimento dos deveres de cidadãos, com frases como "a gente não sabemos escolher presidente", "tem gringo pensando que nós é indigente" e "a gente pede grana e não consegue pagar". Na época, a música causou burburinhos devido as situações políticas, econômicas e sociais em que o Brasil se encontrava.
Eu Me Amo, lançada junto de Rebelde Sem Causa em um momento anterior ao lançamento do disco, fala do ego e dos problemas que enfrentamos para nos aceitar. A música ocupa a nona faixa e é um dos grande sucessos da banda.
Para fechar, é impossível não falarmos de Independente Futebol Clube. Vindo como uma experiência diferente no álbum, ela é a única faixa gravada ao vivo, de um álbum todo feito em estúdio. A aceitação da faixa pelo público na época foi enorme, e isso é bastante evidenciado quando Róger declara que a tocarão três vezes durante o show, além dos gritos e palmas no intervalo entre as métricas da canção.





domingo, 15 de dezembro de 2013

A Nave Foi

Tecnicamente o ano de 1980 faz parte da década de 70, por mais estranho que isso possa soar. Tão estranho quanto seria categorizar o 14 Bis como uma banda dos anos 70. Afinal, sete de seus treze álbuns [entre ao vivo e estúdio] foram lançados entre 1980 e 1987. Mas a banda data do início de 1978, tendo estreado no meio de 1979. E tanto sua sonoridade quanto a temática das canções podem ser considerados mais uma “rabeira” do Clube da Esquina e do rock progressivo dos 70 do que necessariamente a essência do que se produziu nos 80.

A Banda
 
O 14 Bis surge de dois dissidentes do progressivo “O Terço”, Flavio Venturini e Sergio Magrão e dois do Bendegó, Hely Rodrigues e Vermelho, além do irmão de Flavio, Claudio, que já havia tocado com Lô Borges. A relação com o Clube da Esquina vai além da origem mineira dos integrantes da banda [à exceção do baixista Magrão]. Flavio participou das gravações do primeiro disco solo de Beto Guedes “A Página do Relâmpago Elétrico” e, junto com Vermelho, de “Clube da Esquina II”. Em 1979 lançam o primeiro disco homônimo à banda e em 1980 já lançam o segundo, “14 Bis II”.
Se há um álbum capaz de sintetizar a carreira do 14 Bis é o segundo. Canções românticas, dançantes, riffs e harmonias vocais à la Beatles, instrumental progressivo... Tudo está lá. Com excelente qualidade. E permanece até hoje [o que talvez seja o “pecado” da banda]. Se o primeiro disco emplacou sucessos como “Perdido em Abbey Road”, “Canção da América [Unencounter]” e “Natural”, o segundo consolida a potência radiofônica e musical da banda com “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Planeta Sonho” e “Caçador de Mim” [que inverteu o caso de “Canção da América” e “Bola de Meia, Bola de Gude”, tendo sido gravada por Milton Nascimento, compositor destas duas]. Segundo Ricardo Alexandre, ex-editor da revista Bizz, em seu livro "Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80", a turnê de 14 Bis II “levou toda a fixação progressiva por equipamentos para todo o Brasil – toneladas em som e luz, cenografia, gelo seco, um telão e até um modelo do avião 14 Bis que se movia sob a plateia".

14 Bis II
O disco abre com uma parceria de Milton Nascimento e Fernando Brant, “Bola de Meia, Bola de Gude”. Tal como a canção doada ao primeiro disco por Milton em seu “apadrinhamento” à banda, “Canção da América”, essa fez grande sucesso e não pode faltar ao repertório dos shows. Tão “clube-da-esquinística” quanto poderia ser, a faixa de abertura começa com violão e assovios, tem harmonias e “improvisos” vocais, letra nostálgica e mensagem positiva [“Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão”].
Em seguida, outra que se tornou grande sucesso, “Caçador de Mim”, de autoria de Sergio Magrão e Sá, traz uma letra poetizando conflitos internos e música com harmonia e levada de bateria intricados e arranjo de cordas – este tendo o ápice da utilização em “Carrosel”, mais para o fim do disco.  Sem deixar o ouvinte respirar, o órgão [característico do som da banda, composta por dois tecladistas] dá início a “Planeta Sonho”. A letra fala de vários planetas sendo Terra, fogo solto no caos, dissonâncias, e outros elementos que mesmo adorando a música, até hoje não entendi bem como fazem sentido juntas. Mas convenhamos que o grupo teve uma boa escola com os “clube-da-esquinistas” [“Feira Moderna” de Beto, Lô e Brant com o sorriso que eles temem, convite sensual, coração novo e pedido de paz na terra amém que o diga]. O encerramento com os teclados “esmerilhando” já dá o tom do que será a próxima faixa do disco. “14 Bis (Instrumental I e II)” é uma união de dois temas instrumentais de Flavio Venturini e Vermelho que remetem à fase progressiva e psicodélica dos tempos de “O Terço”.
 Se com a virada de bateria que inicia o refrão da faixa anterior ainda não se tinha certeza de que o 14 Bis é uma banda de rock, o Instrumental tenta não deixar mais dúvidas. Em seguida, outro sucesso: “Nova Manhã”. Essa, um rock mais dançante, com letra provavelmente sobre um romance recém-terminado e não tão bem resolvido que encerra com um solo de guitarra que demostra todo o virtuosismo de Claudio Venturini. O disco continua com a lentinha e romântica “Pra Te Namorar” [e dançar coladinho na festinha enquanto ela toca, de preferência] e a acelerada e nostálgica “Esquina de Tantas Ruas” [outro rock pra não se botar defeito]. Na sequência, a poética, romântica e altamente orquestrada, com uma explosão de instrumentos depois da subida de tom no fim, “Carrossel”.
O disco é encerrado com a ode ao rock inglês invadindo a música brasileira, tão viajandona quanto “Planeta Sonho”, “Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)”. Começa suave com o órgão e sinos de igreja, cita “Asa Branca”, “Domingo no Parque” e “Criaturas da Noite” [esta, faixa-título do mais icônico disco d’O Terço], estoura num grito e tem uma estrofe quase gritada em coro, falando dos gritos selvagens chegados pelo atlântico, das pedras rolantes e de Lucy no céu com seus diamantes [claras alusões a Rolling Stones e Beatles, respectivamente]. Tudo está nesta que é uma das canções mais lado B do disco mais representativo do 14 Bis: Órgão, letra viajandona, MPB, rock clássico e progressivo e, depois do fade out, a “sobra” da gravação da orquestra de “Carrossel”.
“14 Bis II” consolida o som e a carreira do grupo mineiro [ninguém lembra da origem de Magrão, coitado]. E como bons mineiros que são, comem quietos até hoje e parecem alheios ao que acontece no eixo Rio-São Paulo. Mesmo emplacando diversos sucessos ao longo dos anos 80, como “Linda Juventude”, “Todo Azul do Mar”, “Espanhola” e outros, eles pareciam viver em outra realidade que não a dominada pela irreverência, consciência política e guitarra mais distorcida que estabeleceram nomes como Titãs, Paralamas, Kid Abelha, Legião Urbana, Utraje a Rigor, RPM e outros no hall dos “roqueiros” brasileiros da década do Rock in Rio. Segundo André Midani, executivo da WEA, citado por Ricardo Alexandre “Tanto A Cor do Som quanto o 14 Bis eram grupos de músicos fantásticos, mas eram o rabo de uma geração e não a vanguarda de outra. Isso fez uma diferencia fundamental”. 


Inaugurando!

Imagem adaptada: As Aventuras da BLITZ (álbum de estreia da banda BLITZ, 1982)

Muitas boas tardes, galera!

Estamos começando uma ideia: o BRock Anos 80 é um blog criado por alunos do curso de Estudos de Mídia da UFF na intenção de discutir acerca do rock nacional dos anos 80. A proposta é realizar críticas sobre alguns álbuns dessa década apontando suas influências e nunca deixando de lado seu contexto, como parte importante da história que esse período de fato compõe.

O rock nacional dos anos 80 ganhou esse título de BRock pelo jornalista, compositor e uma série de outros títulos Nelson Motta. Sua influência vem de um misto de estilos e ritmos como o New Wave, Punk, Pop e ainda o Reggae e o Soul Music. Algumas bandas desse período marcaram seus nomes e compõem o cenário da música atual ainda hoje. Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor e Titãs são exemplos disso.

O BRock trata de casos amorosos e também de temáticas sociais. É um movimento em que cada banda traz singularidades, variando conforme a região de origem, configurando-se como um movimento descentralizado. Vale dizer que o rock dos anos 80 era uma linguagem essencialmente da juventude e colocava os jovens em foco, apresentando possibilidades e padrões de comportamento. Parece que esse foi só um pontapé para uma cultura que é cada vez mais focalizada nos jovens, não é mesmo?

Enfim, por ser um período tão rico da nossa história, por tratar de rock (ROCK!!!!!) e por apresentar tantas possibilidades de abordagem que decidimos falar dele e trazer nossas percepções acerca das músicas e tendências da época. Em breve teremos muito mais!